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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Children of Heaven

Em uma linha similar a “Kite Runner / O Caçador de Pipas” (guardadas as devidas proporções), Children of Heaven é um filme que, em sua simplicidade, emociona.

Com atuações brilhantes de duas crianças iranianas, o filme  é uma homenagem a valores  como nobreza e comprometimento, e utiliza situações que não só ilustram alguns valores fortes da cultura do meio oriente (apesar de tudo), mas que em contra-partida choca por mostrar como esse mesmo valor é raro e não natural na cultura ocidental, especialmente na brasileira desde nossa infância.

A filmagem é impecável e as tomadas de câmera são  memoráveis. Realmente memoráveis! A cena da perda do sapato no esgoto, perda de direção na bicicleta, a chegada da corrida e os pés na agua no final impressionam. Cinema realmente bem feito.

Também vale prestar atenção na paisagem do Irã, onde fica clara a transição do árido do Golfo para o verde do Mediterrâneo. A paisagem do Irã é bastante particular, principalmente ao Norte. Uma vez peguei um taxi com um motorista Kuwaiti (o que já é uma raridade), e ele me disse que era fotógrafo e que ia ao Norte do Irã quatro vezes por ano para tirar fotos durante as quatro estações. Só acreditei porque me mostrou as fotos e eram realmente lindas.

Um filme de gente real, com timing de vida real. Estava com saudade de assistir um filme com um sabor diferente e fiquei com vontade de dividir aqui no final das minhas férias. Fica a dica de Umami.

Feliz 2011! Só posso desejar: PAZ!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Filme: Kamchatka (2002)

Kamtchaka (2002)

Direção: Marcelo Piñeyro

Umamis: 8

Talvez, o que menos importe em Kamtchaka é a história (ainda que também muito sólida). Kamtchaka é um filme de sensações, de olhares de toques e de silêncios...

Primeiro, como contexto, Kamtchaka é uma península na parte mais à leste da Rússia. O filme conta a história de uma família perseguida durante a ditadura militar nos anos 70.

Com Ricardo Darín (o mesmo do excepcional “El Secreto de sus Ojos” e de “Nueve Reinas”), Kamtchaka é um filme simples e sensível, que me tocou principalmente por pintar também os valores de família independentemente das condições externas e adversas.

O filme ressalta a importância da personalidade dos indivíduos que formam uma família, composta de membros fortes, questionadores e altruístas. Como reagir e que responder quando os filhos fazem perguntas difíceis; como não perder nenhuma oportunidade para passar valores e carinho; como compreender as atitudes de cada um mesmo que distintas do que se esperava ou se gostaria.

O segredo de Kamtchaka está nos detalhes. Nos apelidos que se chamam entre eles. Em como a mãe acaricia o filho pressionando dedo dela pela sua sobrancelha. Como os dedos se tocam quando estão deitados na cama juntos. Os sorrisos “marotos” que brotam espontaneamente (e que carregam o espectador junto) ao observar as novas descobertas dos filhos através de uma janela.

As tomadas de câmera são um espetáculo a parte (as aproximações, os angulo e as perspectivas). A atuação dos dois pequenos não é nada menor. Por último, é um daqueles filmes que vale a pena ficar estático olhando as letrinhas subirem no final e escutando a musica forte (a la Frida) de encerramento.

Uma delícia! Muito Umami.

Cada vez me encanto mais e mais com o cinema Argentino. Corre-se o risco de que se possa dizer que os brasileiros fazem a melhor música do mundo e que ironicamente, nossos vizinhos argentinos, os filmes.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Filme: Hable con Ella (2002)

Filme: Hable con Ella (2002)

Diretor: Pedro Almodóvar

Umamis: 8

Existem filmes que são “filmes-pinturas”.

“Filmes-pinturas” são quadros e não histórias. São filmes que gostamos muito, mas não sabemos bem porque. Agrada, mas não por motivos lógicos ou racionais, e sim por algo mais intangível, mais artístico, menos óbvio (e "facinho facinho" de errar na mão). Chega até a dar um pouco de náusea. Utiliza tintas complexas como música, lágrimas, tomadas, cores, olhares, sofrimento, silêncio. Tem uma batida lenta, mas com pulso firme e marcado.

“Hable con Ella” é um filme-pintura. Não é um “Frida” (na minha opinião o maior expoente da categoria filme-pintura. Genial!) mas é definitivamente um excelente filme-pintura.

As pinceladas de “Hable con Ella” misturam lágrimas, amizade, solidão, tragédia, cinema-mudo, homossexualismo, teatro...

...e de certa maneira presenteia a música brasileira. O que é aquela cena do Caetano cantando Cururrucucú em versão acústica?...

(O video esta no final. Vale a pena dar uma paradinha de 3 minutos no meio do furacão do seu dia, clickar no link acima, e deixar essas imagens te levarem para algum lugar distante...)

Como é belo ver força e feminilidade combinadas na mesma mulher!

Que inspirador e provocante é personagem Marco Zuluaga, um homem que vive fora dos padrões, viaja pelo mundo escrevendo guias alternativas, deixa escorrer lágrimas ao ouvir a música de Caetano, sensibiliza-se no Teatro-musical e permite espaço para uma amizade nada convencional, porém mais verdadeira e descomprometida do que a maioria das amizades que presenciamos ao nosso redor. (surpresa boa, um filme de Almodóvar com um personagem masculino, com a excepcional atuação de Dario Grandinetti, como destaque do elenco.)

Já havia assistido há 6 anos atrás, e foi como assistir pela primeira vez; não perdeu nada de intensidade. É muito bom ver Pedro Almodóvar, ainda no seu melhor momento. Eu gosto bastante dos filmes dele, mas acredito que com o passar do tempo, “se le fue un poco la pelota”. As vezes, o artista ganha fama, exagera no excêntrico e perde a genialidade do início. Acho que isso aconteceu um pouco com ele apesar de um retorno agradável às origens em “Los Abrazos Rotos”.

Enfim, “Hable con Ella” é um caleidoscópio de sensações.

PS1: Vamos ver se re-assisto Frida um dia desses e coloco um review.

PS2: Ontem assisti “Celda 211”. É um “Carandiru” espanhol. Não vale um review dedicado, mas é um filme bastante bom.



domingo, 15 de agosto de 2010

Filme: Caramel (2007) & Viagem: Beirute

Filme: Caramel (Sukkar banat)

Diretora (e principal atriz): Nadine Labaki

Umamis: 7

Sei que as recomendações de filme estão um pouco “Middle Easterns”, mas após assistir o filme Caramel no final de semana passado e ir a Beirute nesse final de semana me sinto quase em dívida para fazer uma revisão tripla: filme-cidade-viagem.

O filme é uma espécie de “Sex-in-the-City” libanês. Com personagens muito bem construídos, o filme retrata a vida de 5 mulheres libanesas na sua vertente mais árabe e menos mediterrânea.

Apesar de tratar de temas femininos universais, o mais impactante é o retrato impecável da mulher árabe com viés liberal. Utilizando ingredientes como amores proibidos, repressão sexual, pressão social para casamento x idade, o filme pinta com maestria a mulher árabe que está na intersecção do liberal e da repressão.

A construção dos personagens é genial:

  • Layale: apaixonada por um homem casado que promete que irá abandonar a esposa para ficar com ela (familiar?)
  • Nisrine: como está para casar, necessita fazer uma cirurgia para simular que ainda é virgem (seguramente não-familiar...)
  • Rima: em processo de descobrir-se lésbica (cada vez mais familiar...)
  • Jamale: preocupada por passar dos 30+’s e não conseguir casar (bastante familiar)
  • Rose: na batalha entre amor e cuidar de sua irmão mais velha e “louca”

Seis anos de Oriente Médio, permitiram-me conhecer de perto a mulher de Caramel. Uma mulher que na ânsia de combinar força com feminilidade, acaba por perder esse equilíbrio e junto com ele bastante da feminilidade através de uma atitude ríspida, uma maneira agressiva de se comunicar, uma maquiagem exagerada assim como a cor de suas roupas.

Essa mulher – bastante real - está retratada em Caramel.

Viagem: Beirute (Líbano)

Há alguns anos atrás, a CNN colocou no ar um documentário que se intitulava: “Brazil – a country of contrasts”. Apesar de estar de acordo com a qualificação, penso que poucos países são sinônimo de contrates como aqueles situados na transição Ocidente – Oriente (Turquia, Israel e Líbano)

Dono do título de “inventores” do alfabeto (fenícios), o Líbano reúne 3 línguas (Árabe, Francês e Inglês); Islâmicos x Cristãos; Líbano x Síria; Hezbollah, Shiitas x Sunitas, OLP, neve x mar, sheesha x balada... Está bom para contrastes? É um caldeirão pronto para explodir (e a cada par de anos explode).

Beirute é uma cidade bastante difícil de rotular, mas eu tentaria algo como:

“Uma ilha de mediterrâneo em um mar de Islam”.

Beirute é uma espécie de cidade-Phoênix que se reconstrói das cinzas para sempre voltar a oferecer um ambiente descolado e vibrante.

Ao contrário da fama, a gastronomia de Beirute nunca me emocionou em nenhuma das minhas passagens pelo Líbano. No entanto, se há algo que os de libaneses sabem fazer é: night. (alerta, a noite de Beirute é disputada e requer indicação para entrar nos lugares mais cool).

Apesar de ser um long-shot, sob alguns aspectos, também sempre fico com a sensação de que Beirute tem um “que” de São Paulo pequenina: Zero urbanismo, mas com uma colcha de retalhos de estilos escondida detrás do caos visual.

Não vou focar nas recomendações óbvias (cafés na reconstruída downtown, Corniche com os pigeon rocks e a Gruta Jeita).

As três recomendações da viagem são: Baalbek, Behind the Green Door e Sky-bar.

Baalbeck: o site está a 1h45 de Beirute e possui ruínas romanas em incrível estado de preservação com destaque particular para o Templo de Bacco (sim, o mesmo deus do vinho e do bacanal). (Fotos em breve)

Behind the Green Door: Ao final da vibrante Gemmayzeh street, uma mistura de Sub-Astor com Café de La Musique em seus tempos áureos. Freqüência garantida da high-society libanesa (que apesar de o ser-la, não tem nada de “nojentinha” e mantém naturalidade e diversão).

Sky-bar: consiga alguém “in” para reservar com semanas de antecedência. Um bar/disco a céu aberto que lembra o Reina no Bosphorus em Istambul, só que menos turístico e mais exclusivo. A música é impecável e o visual é show. Abaixo, link do vídeo de 30s realizado in-loco com a câmera do telefone (se estiver em público, abaixe o volume do computador).

http://www.youtube.com/watch?v=icmwbxrBd8s

Como as últimas duas recomendações são de night, vale a ressalva de que ultimamente estou bastante "fora do circuito", mas essas duas são digamos "de bom gosto". (apesar de ainda assim demandarem duas semanas de recuperação e repouso :-)

Por fim, mesmo que óbvio pelo post, Beirute fica ainda mais interessante depois de assistir o filme Caramel.

E agora, me despeço no melhor estilo libanês: Bonsoir; تصبح على خير.; Good Night!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Filme: Persepolis (2007)

Filme: Persepolis


Umamis: 8

"Acidentes históricos e a estupidez de uma minoria ávida por poder, podem impactar a vida de todo um povo..."

Não era o filme que imaginava ser o primeiro do blog, mas é o que eu acabei de ver e não dá para não recomendar.

A primeira vista o filme combina a história da revolução islâmica do Iran com a descrição dos reflexos da revolução na vida de uma jovem iraniana. (o que já é razão suficiente para assistir e gostar do filme)

No entanto, o que faz Persepolis realmente especial são ingredientes mais sutis.

Primeiro o formato arriscado de desenho animado em preto e branco. É estranho, mas depois de alguns minutos não parece que estamos assistindo a um desenho e todos os personagens e lugares parecem incrivelmente reais.

Segundo a combinação de imagem e musica é muito intrigante. Não consigo expressar bem porque mas conseguiram muito umami nessa combinação.

Por último, com o olhar de quem vive há anos no Oriente Médio e visitou o Iran 'in loco', percebo que o filme retrata muito bem o semblante do povo iraniano, os rastros de um passado mais vibrante e a curiosidade de querer entender o mundo através de quem vem de fora.

Ao visitar o Iran, é possível notar um sorriso de quem traz na raiz uma sociedade amável e que evoluiu gradativamente criando raízes profundas. Uma juventude que lê em abundância nos parques públicos. Convites amáveis para visitar suas casas. Enfim, uma sociedade preparada para integrar-se ao resto do mundo e que aguarda com olhos esperançosos a chegada desse dia.

Desfrute o passei conduzido pela jovem Marji.

Dica: para quem não conhece bem o background histórico, vale a pena dar uma passada rápida no wikipedia para entender o contexto dos Shahs, comunismo, guerra Iran-Iraque, interesses do ocidente pelo petróleo, sequência de eventos e contexto político.
http://en.wikipedia.org/wiki/Iranian_Revolution