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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Iceland. Shhhhh.....



Amplitude, imensidão, silêncio, cores, contrastes, natureza, isolamento, paz...

É muito difícil descrever o que a Islândia tem de especial. Qualquer adjetivo perde  dimensão ou perspectiva. Qualquer foto parece um mero esboço distorcido da realidade. Lembro-me de que a cada foto tirada, olhava frustrado para câmera e pensava: “É, essa vai ter que ficar registrada na memória...”

Os horizontes e os contrastes da Islândia ficam tatuados na memória e na alma. Por vezes é difícil para os olhos lidarem com o que está adiante. A Islândia embriaga.

A todo tempo, o entorno, que é uma materialização real do mundo do Senhor dos Anéis, insiste em  nos recordar de nossa insignificância na condição individual; é como se não importássemos para nada, reduzidos a um minúsculo pontinho diante de tamanha grandiosidade.

Um outro efeito interessante, é o persistente questionamento de nosso modelo de metrópole. Em muitos momentos, ao olhar perdido para aqueles horizontes absurdos, me lembrava de São Paulo, da sensação de falta de espaço, da falta de ar, da falta de vista horizontal, do “ensardinhamento” diário, da asfixia do tempo, do trânsito, da poluição e pensava: “como conseguimos viver assim???”. Definitivamente não é natural.

Nas mega-metrópoles, vivemos em uma constante asfixia de o que vamos fazer, com quem nos vamos encontrar, para onde vamos sair. Existe uma constante necessidade de nos distrairmos pensado na próxima atividade. Vamos de evento em evento como uma peteca “kickando”. Nenhum deles muito legal, todos ok, curtos, com pessoas oks e com o próximo plano em mente. E assim passa mais um dia de maneira suportável. 

Na Islândia não, acontece o contrário: não sentimos vontade, nem pressa de ir para lungar algum. Na verdade é uma moléstia deixar de desfrutar qualquer parada. A vontade é de ficar por horas e horas; dias, ali, em silêncio, apenas existindo. Vivendo devagar...

E não. Não se trata de um silêncio melancólico ou triste. É um silêncio calmo, que preenche e que confere paz.

Encontrei muitos locais. No meio do nada. Em fazendas, cuidando de seus cavalos. Em povoados minúsculos circundados por uma natureza indescritível. E sempre lhes perguntava: como é viver na Islândia? Respondiam: O que você acha? (e apontavam ao redor.. com um olhar que desdenha: “você não entenderia...”)

Gratas surpresas
  • Dirigir “lost in iceland”: Apesar de espetaculares, nenhum dos highlights ou dos pontos turísticos é a atividade mais legal na Islândia. Surpreendentemente, simplesmente dirigir, perdido no meio do nada, é de longe o mais cool na Islândia. Islândia é o conjunto e não um ponto. Durante toda volta na ilha, você dirige praticamente sozinho. Perdi o controle do carro em vários momentos, pois meus olhos se perdiam nas paisagens. Acredito que dirigir só perca sua posição no ranking para ficar lendo, cozinhando ou sem fazer nada, por dia inteiro em um recanto perdido no meio do nada...(mas esse vai ficar para ser testado numa segunda vez)

  • Almoçar isolado no meio do nada: durante o trajeto, existem vários pontos sem ninguém, com uma mesa e cadeiras de madeira, no meio de montanhas, lagos e fiordes. Pode-se parar o carro, descer, almoçar circundado de um entorno de tirar o fôlego.

  • Música: a música na Islândia é outra grata surpresa, com influência de Norah Jones, Jack Jonson, misturado com Pink Floyd e Loreena Mckennitt eles fazem uma música alternativa e meio experimental, por vezes underground mas de muita muita qualidade. A música do vídeo acima é um exemplo. Recomendo Sin Fang, Snori Helgason e Rokkurro. Na rua da igreja em Reikjavik tem uma loja de CDs amarela chamada 12 Tónar que é muito bacana; tem uma engenhoca de fazer café de 19..e lá vai bolinha. A música ao vivo nos bares locais também é de qualidade.

  • Highlights favoritos: Golden Circle, Jökulsárlón Glacier Lagoon, a maioria das cachoeiras e especialmente Dettifoss, a região dos fiordes à leste, Námaskarð, as vistas do alto de Vik e Snæfellsnes. Fotos, no meu FB link.



Curiosidades
  • Cobains: As ruas de Reykjavik estão cheias de Kurt Cobains meio que “roceiros”. É um monte de  jovem loiro underground, com franjas a la Smash, e calças caindo pelos joelhos. Engraçado.

  • Self-service: Os “icelandicos” (como chamo carinhosamente os islandeses) são obcecados pelo self-service. Além dos esperados self-service nos postos de gasolina e empacotando no supermercado, eles levam o conceito mais além: carregue você mesmo pelas escadas suas malas até o terceiro andar do hotel, pegue sua comida você mesmo, dentre muitos outros. E não é por mal, dá a impressão que os “icelandicos” vêem o excesso de “servencialismo” como algo desigual e não desejado na sociedade.  É o socialismo sem ser imposto. Assim, se você vem em um restaurante, eu te dou comida. Se vem em um hotel, te dou um quarto. Nada mais. Apesar de não ser nosso costume, achei questionador. 

  • Honestidade e civilidade: Os “icelandicos” são bastante civilizados, austeros e civilizados. Ainda mantendo um saudável are de roceiro de saudade pequena, as coisas funcionam e se pode confiar 100%. Por exemplo, percebi que esqueci meu cartão de crédito em um restaurante e só liguei para lá para eles cortarem o cartão horas e horas depois. Sem preocupação. Já nos bares de um pais verde e amarelo...

  • Free Wifi: Quase todos os hotéis e restaurantes/cafés tem Free Wifi e normalmente com boa velocidade. Not bad.
Surpresas negativas
  • Custo: Fui imaginando que seria barato depois que o país quebrou em 2008, mas o cartão de crédito ficou dodói... Hotel e comida tem custos bem elevados...

  • Hotéis: Os hotéis na Islândia estão divididos em 2 grupos: os que tem água com cheiro de ovo podre e os que não. 90% deles são os com cheiro :(. Extremamente desagradável. Nunca se tem a sensação de real limpeza. Os destaques ficam para o Hotel Reykjavik Centrum (bem melhor que o de mesmo preço Reykjavik Residence Apartment) e para o simpático Vogafjos-Guesthouse Lodging na região de Myvatn, que possui uma área de café da manhã envidraçada, com vistas para o lago e para as vaquinhas da fazenda do hotel. Se for ao passeio de baleias em Husavik, não ficar em hipótese alguma no Fosshotel Husavik Lodging (apesar de sua boa colocação no tripadvisor)

  • Moscas em Myvatn: pelamordedeus...essa sim foi uma surpresa negativa! Apesar do lugar ser maravilhoso, pouco pude desfrutar dada a quantidade infinita de moscas. Alguns mais avisados passeavam usando um chapéu que tinha uma redinha em volta do rosto. Mandatório, sem essa redinha, pouco se desfruta da beleza da região próxima ao lago.

  • Comida local: (ler em “Gastronomia”)

  • Highlights menos interessantes: Blue Lagoon (é basicamente um piscinão de Itaquera repleto de Corinthiano loiro). Dimmuborgir, Hraunfossar também são médios. Alguns me matariam, mas as baleias em Husavik são “nice to have” porém dispensáveis.
Gastronomia
  • Comida local: Tenho por teoria que “loiro + olho azul + frio = Comida Ruim”. Bons exemplos dessa teoria são Rússia, Europa do Leste e Alemanha. A Islândia não é diferente e é bem-vinda ao grupo com louvor. A comida local é baseada em peixes (muito salmão defumado) e também inclui baleia, puffin e o absolutamente intragável tubarão (a não ser que você pense que pode gostar de uma comida com forte sabor de amoníaco). Os “Icelandicos” adoram comer pepino, pimentão e ovo cozido frio no café da manhã. Lamentável. 

  • Baleia: A baleia quando bem preparada é bastante saborosa. É vermelha escura, se parece mais com carne do que com peixe, mas com um sabor mais leve. Tem um boteco em Reikjavik chamado Islenski Barinn que prepara uma entrada de baleia deliciosa.

  • Hot Dogs: OK, eu não sou lá muito chegado em cachorro quente. Mas os hot dogs na Islândia são muito saborosos. É um hot dog simplão (não aquela mandala que comemos no Brasil), com uma salsicha de carneiro, e um molho local que acredito vai bacon ou algo defumado. Impressive. Em Reykjavik, tem um local especial para comê-los: uma barraquinha vermelha, entre o Hotel Radisson Blu e o escritório do Icelandic Excursions. Está sempre com fila, e ficou tão famoso que foi o primeiro lugar que o Bill Clinton visitou quando chegou em Reykjavik (tem uma foto dele comendo o hot dog dentro do Kiosk)

  • Cerveja: Curiosamente só tomei cerveja estupidamente gelada em 3 países: chopp no Brasil, Imperial em Portugal e Draught beer no Islanski Barinn na Islândia (onde a caneca vem completamente coberta de gelo).


  • Restaurantes: os destaques vão para Fish Company, Fish Market e claramente meu boteco preferido, o Islanski Barinn. Evitar o número 1 do tripadvisor Harry’s (afastado, ambiente pobre e insípido). Ah! O único restaurante de tapas/art-gallery na região dos fiordes também é interessante.


Ficou Faltando :(
  • Northern lights: a afamada aurora borealis ocorre com mais freqüência no inverno bravo.
  • Puffins: uma mistura de pássaro com pingüim (bem simpático) que deixou a ilha 2 semanas antes d’eu chegar e não me avisou.
  • Vulcão com lava em atividade: o último que tinha lava laranja e dava pra ir de helicóptero  já havia apagado...
  • Askja: Uma cratera com spring water  como a blue lagoon

Iceland é mágico. É único. É top 3 +Umami travel!!!! Espero um dia poder voltar a estar “Lost in Iceland...”


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O sorriso Thai

Uma coisa me chama a atenção no Kuwait: as crianças não sorriem. Nem mesmo os bebês sorriem! Sabe aquele sorriso casual e espontâneo dos bebes e das crianças, quando alguém sorri para eles ou faz alguma bobagem? Então, esse sorriso não existe no Kuwait.

Essa semana estive pela quinta vez na Tailândia. A Tailândia é um pais que me encanta....é um país mágico. De certa maneira, a Tailândia me lembra em muitas coisas o Brasil...uma espécie de Brasil sem algumas partes "menos boas", como: problemas de segurança, levar vantagem e outras. Mas é inegável que existem muitas similaridades: clima tropical, praias exuberantes, frutas exóticas, povo relaxado e feliz. Até Bangkok se parece a uma espécie de São Paulo. Inclusive o caminho para a praia remete surpreendentemente ao look and feel da Pedro Taxi.

Mas há algo único e especial na Tailândia: o sorriso Thai. Talvez a mais marcante "impressão digital" e expressão desse povo.

É curioso como um autêntico sorriso anda escasso nos dias de hoje... Não é que não existam sorrisos. Temos muitos sorrisos: o sorriso profissional (de recepcionista de hotel londrino), o sorriso político, o sorriso de vendedor, o sorriso do comediante, o sorriso de nervoso, o sorriso feakout, o sorriso para ver e ser visto, o sorriso para “mostrar que sou bacana”, o sorriso embriagado dos botecos. Temos até o falso sorriso para os inimigos. Mas que pouquinho sorriso com profundidade...

O sorriso Thai é autêntico, genuíno, espontâneo, “de verdade”. Um sorriso que vem de dentro da alma. Um sorriso que emana paz e equilíbrio. Um sorriso de entrega. Um sorriso de celebração à vida!!! Um sorriso de gratidão. O sorriso Thai alegra quem o recebe, mas o tailandês sabe que mais beneficia quem o oferece. O sorriso Thai nos recorda que o segredo da vida encontra-se nas coisas mais simples. É um sorriso que quase fala... como se dissesse: “Que gostoso poder te encontrar aqui e agora. Obrigado pela oportunidade de trocar um sorriso com você.”

O sorriso Thai parece aquele sorriso que escapa espontaneamente quando encontramos um bebê de um amigo. Ou quando ajudamos um idoso na rua. É um sorriso que afaga o coração. Que pega nosso coração, e o coloca a repousar em um berço com um cobertor bem quentinho e um travesseiro confortável. É isso, o sorriso Thai é um chamego no coração.

E que bem faz esse sorrir. Todos os dias pela manhã, eu saía para correr em uma pacata zona da cidade de Hua Hin. Como de costume, me preparava para suportar mentalmente os 10, 12 até 15km que pretendia cobrir debaixo do sol de 40C. Preparava o GPS, o iPod com música brasileira, "toquinha anti-suor" e começava o percurso. Mas logo nos primeiros passos, ao cruzar com o primeiro Thai, este, me olharia profunda e carinhosamente nos olhos e abriria o autêntico e verdadeiro sorriso Thai. Isso aconteceria no primeiro minuto; no segundo; no terceiro; e seguiria minuto a minuto durante todo o percurso. Até os estrangeiros que vivem aí também já internalizaram esse sorriso mágico.

O conforto desse sorriso, fazia com que eu recebesse uma espécie de boost de energia e prazer para continuar correndo no meu ritmo. Era como se pudesse acelerar mais a cada passada. E de sorriso em sorriso, o trajeto passava sem que eu quase o sentisse... Não sentia o esforço físico, mas sim, sentia no coração uma mistura de alegria e nostalgia. Nostalgia de viver em uma sociedade mais feliz, menos plástica e artificial, mais de verdade, mais pé-no-chão e voltada ao que deveria ser mais prioritário na vida.

Por traz do marcante sorriso Thai, existe uma sociedade que cultiva uma cultura saudável. Uma sociedade que acima de tudo busca o equilíbrio. Equilíbrio em todas as esferas: física, mental, espiritual e social. Uma cultura que ainda consegue ficar consideravelmente imune à programação que nos é imposta no ocidente e que foca no equilíbrio através da meditação, saúde física, alimentação saudável, consciência e responsabilidade na qualidade dos atos de cada individuo e na coletividade sem negligenciar a individualidade.

Agora estou no avião. Deixo a Tailândia feliz, cheio de vitalidade, paz e contagiado pelo calor do seu sorriso.

A Tailândia é um encanto de país. Certamente não será a última, das muitas visitas futuras que pretendo fazer a esse país. Nem que for para sentir o conforto e a paz desse sorriso.

Um sorriso cheio de Umami para você. Tenha um excelente dia!

Sawadee krap

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Itália: Trilhando o menos obvio...

Acabei de regressar da minha terceira viagem à Itália, mas a primeira em verdadeiro slow motion, perambulando pela “bota” por duas semanas e meia (o que também explica a completa estiagem de novos posts no +Umami).

Já é mais do que manjado, que a Itália abunda de paisagens espetaculares, gastronomia mediterrânea, estilo de vida europeu, história, clima agradável, pessoas bonitas, bla bla bla.... Mas o que faz dá Itália um lugar de Umami mesmo são nada menos do que “os próprios italianos”. Meus amigos sabem que nas minhas viagens coloco um peso desproporcional ao fator pessoas (já podem imaginar o que acontece na minha cartilha com Alemanha, Paris e Índia ...). O italiano é um bicho “bon vivant” que desfruta da vida, ri, canta, conversa, gesticula, fala alto, come bem, bebe vinho e acima de tudo não transparece um ar artificial, mecânico ou arrogante.

Assim, os 3 elementos maiores para descrever o que faz da Itália um lugar especial são o balanceamento perfeito de: estilo de vida europeu + gastronomia mediterrânea + “latinidade” do italiano (ou seja pessoas).

Tenho pensado um novo blog (mais técnico) focado em dicas “não-obvias” sobre países e cidades que visitei incluindo um ranking de lugares para visitar (com mais foco em “uniqueness”, gastronomia e pessoas, e menos em igrejas, compras e poluição turística). Um dia quando der vontade ponho no ar. Por enquanto faço um resuminho aqui no +Umami.

POSITANO: DIFÍCIL DE ENTENDER

Restaurantes turísticos com comida medíocre, infectado de americanos super awesome (é tão fácil vender sonho para americano que estão todas as divorciadas buscando o Marcello do “Under the Toscan Sun”), praia minúscula e de areia escura, preços nas alturas, hotéis velhos e cidade-penhasco difícil de caminhar. Tudo para ser um desastre! Mas não; Positano tem Umami. A vista de Positano é hipnótica e de efeito duradouro. Fica tatuada na mente. Quem já viajou comigo sabe que a agenda normalmente é pesada e requer endurance, mas Positano me freou e me encheu de paz. Matei vários passeios planejados para ficar apenas sentado na varanda do hotel lendo, escutando o mar, e levantando os olhos para ficar chocado com a imagem diante de mim.

Para ajudar (e muito) a driblar a mediocridade dos restaurantes turísticos (ex: Café Positano), Positano tem um restaurante maravilhoso: o Next2. Eu sei, eu sei..., o nome é muito infeliz; eu também quase não fui com um nome desses. Mas não se deixe abater pelo nome. Apesar de gostar muito das duas versões de comida italiana (cantina e contemporânea), sou um grande fã da contemporânea a la Gero. E o Next2, apesar de não ser um Gero, poderia tranquilamente ter uma estrelinha Michelin e ainda com um valor honesto. Com uma gastronomia simples mas meticulosa e ingredientes delicados, cultivados na horta familiar dos donos, o Next2 surpreende pela qualidade da comida e pela sua apresentação. Além disso, a massa vem “queimando” e ainda al dente; para mim a temperatura da massa é fundamental e queimando é o mais frio aceitável. O calamari fritti do restaurante Mediterrâneo (ao lado) também é bastante saboroso. De resto um mar de mediocridade. Recomendaram-me o Conca Del Sogno, Quattro Passi e Relais Blu que ficavam fora de Positano e necessitavam carro, mas eu não tinha a menor vontade de me movimentar muito.

BEM IMPORTANTE: A vista (leia-se: o hotel) é a chave em Positano. Não só o hotel, mas o quarto especificamente. Tem muito hotel sem vista, ou hotel bom com alguns quartos com vista e outros sem. Cuidado com os reviews de hotéis porque o quarto é a chave. Eu fiquei no Miramare e gostei bastante (quartos 205 ou 206). Andando por Positano, encontrei outras opções que parecem muito boas como o Marincanto (com infinity pool) e La Sirene. Cuidado com o #1 e #2 do Tripadvisor. O Palazzo Murat tem um jardim com restaurante muito agradável, está bem localizado na rua das lojinhas, mas peca na vista. O Bucca di Bacco tem o benefício de estar ao pé da praia mas também perde em vista. Prefiro os que estão um pouco mais afastados nas laterais mas com o foco em vista.

CINQUE TERRE: MIXED FEELINGS

Fiquei com mixed feelings sobre Cinque Terre.

Cinque Terre são cinco vilarejos de pescadores situados na Ligúria ao noroeste da Itália.

É certo, que na sua essência, Cinque Terre é charmoso. Os vilarejos são lindíssimos. Uma “Costinha” Amalfitana mais tropical. Há 10 anos atrás, antes de aumentar em popularidade no radar turístico, deveria guardar seu charme rústico. E até hoje é visualmente muito bonito e rústico.

No entanto, hoje em dia caiu no radar turístico e ... (já sabe)

Com isso, acho que Cinque Terre não fica nem lá nem cá. Por um lado não é um lugar genuinamente rústico e preservado do turismo, por outro, não apresenta os benefícios indiretos que o turismo traria na parte de conforto, gastronomia e hospedagem.

Resultado: Você sai com o “pior” dos dois mundos: difícil acesso, falta de infra-estrutura, mosquitos, gastronomia sem graça com preços altos, e poluição turística.

Sobre hospedagem 3 filosofias:

- Foco em infra-estrutura em detrimento de charme: La Spezia

- Foco no rústico sacrificando conforto: Vernazza ou Corniglia

- Meio-a-meio (mas sem espírito): Monterosso Al Mare

Fiquei em um “hotel” (mais bem uma mistura de casa, castelo e favela) em Vernazza chamado Marina Rooms. Bem simples, bem caro, sem ar condicionado, mas com uma terraça de pedra na beira do penhasco com o mar chocando nas pedras abaixo. Gostei com moderação...

Em resumo: valeu a visita. Nos momentos de maior isolamento (como passear a noite e o giro de barco pelas 5 cidades) dá para sacar o charme de Cinque Terre. Faria novamente: Sim. Retornaria? Não sei.

ROMA: MELHOR NA SEGUNDA VEZ

Gostei bem mais na segunda visita do que na primeira. Não vou “empilhar” palavras sobre Coliseu, Vaticano e outras obviedades. O que eu gostei mesmo foi da noite de Roma. Tive mais tempo de me jogar com calma pelas ruazinhas do Trastevere, e pela região que rodeia Piazza Navona e Campo di Fiori. Repleto de restaurantes e mesinhas ao ar livre, o ambiente é autêntico e descontraído. Com bons restaurantes, a grande recomendação foi dada por um amigo do Kuwait e se chama L’osteria De Memmo. Numa ruela minúscula próxima a Piazza Navona, com preço honesto, e comida fresca e excelente, o grande personagem é o fofucho Memmo. Um gordinho simpático, suado e sorridente, que gosta de comandar as mesas trazendo uma infinidade de entradas saborosíssimas como polvo, polpetone, muzzarela de búfala, prosciutto, fagioli, ... enfim uma orgia gastronômica, e é preciso cuidado: não cometa o erro de ficar sem “espaço” já nas entradas. Os pratos são ótimos. Foco em massa e mar. O Le Mani in Pasta no Trastevere também é muito bom.

Abaixo, mais algumas rapidinhas, que claro excluem o obvio “must to see” que os guias e o Google já cobrem mais que suficientemente.

DESTAQUES POSITIVOS:

Positano, Costa Amalfitana e Next 2: Comentado acima.

Roma (noite e restaurantes): Comentado acima.

Civita di Bagnoregio: Um bom-bom de cidade. Uma cidade medieval “morta” com 30 habitantes, perfeita para cenário de filme. Fica a minutos de Orvieto e a combinação das duas para um day-trip é uma excelente idéia.

Pompéia: Depois de ver tantas ruínas, tinha certeza que não iria gostar de mais nenhuma. Afinal de contas, anfiteatro, colunas dóricas, templos, fórum, mosaicos..., viu 3 viu todos. Mas Pompéia não é um sitio de ruínas normal. . Pensei que iria ficar 2-3 horas e acabei ficando 7. E o que Pompéia tem de diferente?

a) a) Real: em Pompéia você não precisa fazer malabarismos de esquizofrenia para tentar imaginar cidades e templos a partir de “cotocos”...A cidade esta lá e é enorme. Dá para sentir como era a vida a 2000 anos atrás.

b) Mosaicos: os mosaicos de Pompéia são alucinantes e as cores vívidas são difíceis de acreditar que sobreviveram ao tempo.

c) Plaster Casts: são os corpos de pessoas que foram surpreendidas com a erupção do Vesúvio a 2000 anos atrás. É muito impactante. Algumas parecem guardar eternamente a expressão de angústia.

Sobre o Vesúvio dá para ver de Pompéia. Não acho que vale a pena visitar o topo se estiver apertado de tempo (como diz um amigo: vulcão fora de erupção não passa de uma montanha famosa!)

Galleria Borghese: Que surpresa boa! Sei que é um pouco polêmico, mas gostei mais da Galeria Borghese do que o museu do Vaticano e da Galeria Uffizi. Com menos obras, menos turistas, muito bem organizada e mais acolhedora, possui três obras absolutamente espetaculares de Bernini: “David”, “Rape of Proserpine” e a incrível “Apollo and Daphne”. Além de estar situada na agradável Villa Borghese, excelente para “descompressurizar”...

Florença (Hotel Continentale e restaurantes): A verdade é que ao contrário de Roma, gostei bem mais de Florença na primeira visita do que na segunda. Essa vez achei muito turística e muito pequena. Mas Firenze é Firenze e é obrigatória pela história, arte e pela cidade. A surpresa dessa segunda vez ficou mesmo na recomendação de restaurantes que um amigo que morou lá me passou (3 dos melhores restaurantes das 3 viagens que fiz). São eles:

a) Osteria di Benci: A bisteca Fiorentina daqui é excelente. E olha que é difícil me surpreender na categoria carnes. Obrigatório.

b) Borgo Antico: Na Piazza di Santo Spirito, simplesmente o melhor “linguini al vongole” da minha vida.

c) Ristorante del Fagioli: Com ambiente de cantina mais autêntico, repleto de locais, e com uma bisteca Fiorentina quase tão excelente quanto da Osteria di Benci, o acampanhamento do Fagioli (feijão branco) fazem desse restaurante um lugar obrigatório.

Hotel: Adorei o hotel-butique chamado Continentale. Está ao pé da Ponte Vecchio. Na frente tem o Gallery Hotel Art que é do mesmo dono e é outra ótima opção.

San Gimigniano: Ainda que bastante turística, San Gigminiano é a cidade medieval mais legal que já visitei (na minha opininao bem mais legal que Siena). Realmente faz jus ao barato apelido de Manhattan Medieval. Não deixe de comprar (muito) prosciutto, queijo Pecorino, Salame trufado e “charcuteria” em geral no La Buca com o atencioso Maurito. O restaurante “Le Vecchie Mura” tem uma vista linda e um “gnocchi tartufo e formagio” muito bom.

DESTAQUES NEGATIVOS

Nápoles: Uma mistura de Bexiga, com José Paulino e Largo da Batata.

Sujo, caótico, e pobre. As pessoas carregam um semblante sofrido no rosto.
OK, acho que pode ser até interessante para quem morar e descobrir o circuito “mais in”, porém para visitar definitivamente questionável e primeiro da lista a ser cortado se a agenda estiver apertada. A única menção honrosa ficou mesmo para um pato dormindo “nos braços” de um cachorro no meio da rua...


Capri: Pagação. Apesar das belezas naturais que certamente são as responsáveis pela eventual fama da ilha (e realmente é bonita), Gucci, Chanel, Tiffany realmente “brocharam” Capri para mim. Essa misturinha de marcas luxuosas e natureza não funciona comigo e mais bem me dá bastante asco. Porém para quem gosta é prato cheio.

L’Olive: Único restaurante com estrela Michelin (tem duas) de Capri, é o pior restaurante com estrelas Michelin que já fui. Servem uma espécie de carne de lagarto sem sabor como as de festa de aniversário infantil. Apesar de apreciar bastante a “gastronomia experimental” a la “El Bulli”, as combinações exóticas que tentam fazer no L’Olive parecem mais uma aula de laboratório de química descuidada do que gastronomia. A freqüência então é assombrosa. Patético.

Portofino: Plástico. Fala sério, tanto zum zum zum para um lugar com prédios com paredes pintadas simulando pedras?!?!? O que que é isso?!?! Disneylândia italiana? E as hordas de anciãos saindo dos barcos que chegam de Santa Margherita que mais parece um Montevidéu?. Além de tudo, tem o mesmo problema de “Porto+Marcas” que Capri mas sem a mesma beleza natural. Pode até fazer sentido para quem chega de Iate de uma das mansões das cidades vizinhas, para almoçar com os amigos e comprar algo. Mas para visitar, absoluta perda de tempo. O pior lugar visitado das 3 viagens.

Galeria Uffizi: Um “sacro”! Eu tinha a expectativa bastante alta e apesar das realmente incríveis obras de Botticelli (O Nascimento de Venus e Primavera) quem me conhece sabe que igreja e santinho me dão sono. Vamos combinar, é muito santinho hein?. Santo do século XIV, do século XV, XVI, santo na madeira, santo preto-e-branco, tem santo para todos os gostos e sabores. Tem até aqueles santos um pouco assombrados que o Caravaggio gosta de pintar na escuridão e que de tão escuro quase não da para ver. Enfim, achei bagunçada e chata.

“Catacombes de Saint Calisto” em Roma: Achei que tinha ficado faltando na minha primeira visita à Roma e resolvi incluir dessa vez. Longe e desinteressante. Nada a ver com a cheia de personalidade e muito mais interessante “Catacombs de Paris”

Pisa: “Era uma vez uma torre branca e inclinada que todo mundo pára pra tirar foto de caminho a algum outro lugar próximo mais interessante ...” Se for passar, calcule uns 10 minutos de investimento de tempo...

NEUTRO

Cinque Terre: Talvez merecesse estar no positivo, mas fiquei com mixed feelings. Talvez dei azar. Comentado acima.

Orvieto: Bacana mas não obrigatório. Interessante mesmo foi ficar em um hotel eclesiástico B&B (ou auto intitulado “casa religiosa di ospitalita”) chamado Villa Mercede. O responsável é o padre Antonino que faz as vezes de recepcionista e reservas e concierge. Faz questão de dizer que não vai alterar os horários de seu dia a dia (como siesta e dormir cedo) por causa do maledeto hotel. Todo um personagem.

Veneza: Quase um destaque negativo, Veneza não me causa tic-tac. É como se fosse um Campos de Jordão com aguinha, em 1 minuto acabou a cidade. Com, muita poluição turística, Veneza é mais um tick-in-the-box.

Siena: Bem bacana mas também nada do outro mundo. Para quem passa por Florença, é um bom day-trip principalmente se combinado em 2 dias com San Gimignano.

Lucca: Charmosinho. Bem charmosinho. Fiquei pouco tempo de passagem para Cinque Terre mas vi potencial. Queria ter ficado um pouco mais. O restaurante Buca de Sant’Antonio é bastante bom.

FICOU FALTANDO...

Agriturismo na Toscana: Tem potencial para viagem de lua-de-mel. De caminho a San Gimigniano, vi várias pontos de agriturismo com paisagens paradisíacas. Vou querer voltar um dia para ficar 1 semana só por ali.

Sicilia e mais sul, Assis, Milão, San Marino, Sardenha, Ischia, Córsega e outras ilhas e certamente outras mais...

BUT THERE IS ONE MORE THING...

Como diria Steve Jobs: There is one more thing...

A combinação iPhone/iPad modificou estruturalmente minha maneira de viajar. Acho que até vou fazer um post futuro sobre isso mas aqui vão os 4 principais impactos:

Car GPS Tom-Tom: Economia de 200 euros evitando aluguel de GPS para o carro. Mas mais importante, GPS na tela de 9.7 polegadas com as ruas e estradas atualizadas a cada update não tem preço. A prova de bala, funcionou até nos caminhozinhos mais inóspitos.

Bye-bye Lonely Planet de papel: Não precisar carregar o “monstro” do Lonely Planet (nem tirar xerox das partes desejadas) e poder usar o search para ir direto ao que se busca é no mínimo inteligente. Melhor ainda, está no ipad e no iphone sincronizados simultaneamente, ou seja todo o tempo com você.

Mapas locais: Baixar apps com mapas locais de cidades como Roma e Florença e ter todos os pontos de interesse sem precisar de internet é muito legal. Assim, ao invés de levar o mapa do hotel, que precisa abrir e ficar olhando o nome das ruas, você vai caminhando descuidadamente e só vai monitorando se o seu pontinho no mapa (vermelho) está cada vez mais perto do ponto de interesse target (azul).

Áudio e Vídeo Guides: a visita à Pompéia com o Vídeo Guide de Pompéia no iPad foi muito legal. A oportunidade de parar em frente as ruínas e assistir a um vídeo com a reconstrução do local e narrando os principais fatos históricos não tem preço. Com certeza vou focar em áudio e video-guides para iphone e ipad nas próximas viagens.

Enfim, foi demais. Ficou difícil entrar no avião de volta ao Kuwait (até porque ganhei quase 8kgs....)




domingo, 15 de agosto de 2010

Filme: Caramel (2007) & Viagem: Beirute

Filme: Caramel (Sukkar banat)

Diretora (e principal atriz): Nadine Labaki

Umamis: 7

Sei que as recomendações de filme estão um pouco “Middle Easterns”, mas após assistir o filme Caramel no final de semana passado e ir a Beirute nesse final de semana me sinto quase em dívida para fazer uma revisão tripla: filme-cidade-viagem.

O filme é uma espécie de “Sex-in-the-City” libanês. Com personagens muito bem construídos, o filme retrata a vida de 5 mulheres libanesas na sua vertente mais árabe e menos mediterrânea.

Apesar de tratar de temas femininos universais, o mais impactante é o retrato impecável da mulher árabe com viés liberal. Utilizando ingredientes como amores proibidos, repressão sexual, pressão social para casamento x idade, o filme pinta com maestria a mulher árabe que está na intersecção do liberal e da repressão.

A construção dos personagens é genial:

  • Layale: apaixonada por um homem casado que promete que irá abandonar a esposa para ficar com ela (familiar?)
  • Nisrine: como está para casar, necessita fazer uma cirurgia para simular que ainda é virgem (seguramente não-familiar...)
  • Rima: em processo de descobrir-se lésbica (cada vez mais familiar...)
  • Jamale: preocupada por passar dos 30+’s e não conseguir casar (bastante familiar)
  • Rose: na batalha entre amor e cuidar de sua irmão mais velha e “louca”

Seis anos de Oriente Médio, permitiram-me conhecer de perto a mulher de Caramel. Uma mulher que na ânsia de combinar força com feminilidade, acaba por perder esse equilíbrio e junto com ele bastante da feminilidade através de uma atitude ríspida, uma maneira agressiva de se comunicar, uma maquiagem exagerada assim como a cor de suas roupas.

Essa mulher – bastante real - está retratada em Caramel.

Viagem: Beirute (Líbano)

Há alguns anos atrás, a CNN colocou no ar um documentário que se intitulava: “Brazil – a country of contrasts”. Apesar de estar de acordo com a qualificação, penso que poucos países são sinônimo de contrates como aqueles situados na transição Ocidente – Oriente (Turquia, Israel e Líbano)

Dono do título de “inventores” do alfabeto (fenícios), o Líbano reúne 3 línguas (Árabe, Francês e Inglês); Islâmicos x Cristãos; Líbano x Síria; Hezbollah, Shiitas x Sunitas, OLP, neve x mar, sheesha x balada... Está bom para contrastes? É um caldeirão pronto para explodir (e a cada par de anos explode).

Beirute é uma cidade bastante difícil de rotular, mas eu tentaria algo como:

“Uma ilha de mediterrâneo em um mar de Islam”.

Beirute é uma espécie de cidade-Phoênix que se reconstrói das cinzas para sempre voltar a oferecer um ambiente descolado e vibrante.

Ao contrário da fama, a gastronomia de Beirute nunca me emocionou em nenhuma das minhas passagens pelo Líbano. No entanto, se há algo que os de libaneses sabem fazer é: night. (alerta, a noite de Beirute é disputada e requer indicação para entrar nos lugares mais cool).

Apesar de ser um long-shot, sob alguns aspectos, também sempre fico com a sensação de que Beirute tem um “que” de São Paulo pequenina: Zero urbanismo, mas com uma colcha de retalhos de estilos escondida detrás do caos visual.

Não vou focar nas recomendações óbvias (cafés na reconstruída downtown, Corniche com os pigeon rocks e a Gruta Jeita).

As três recomendações da viagem são: Baalbek, Behind the Green Door e Sky-bar.

Baalbeck: o site está a 1h45 de Beirute e possui ruínas romanas em incrível estado de preservação com destaque particular para o Templo de Bacco (sim, o mesmo deus do vinho e do bacanal). (Fotos em breve)

Behind the Green Door: Ao final da vibrante Gemmayzeh street, uma mistura de Sub-Astor com Café de La Musique em seus tempos áureos. Freqüência garantida da high-society libanesa (que apesar de o ser-la, não tem nada de “nojentinha” e mantém naturalidade e diversão).

Sky-bar: consiga alguém “in” para reservar com semanas de antecedência. Um bar/disco a céu aberto que lembra o Reina no Bosphorus em Istambul, só que menos turístico e mais exclusivo. A música é impecável e o visual é show. Abaixo, link do vídeo de 30s realizado in-loco com a câmera do telefone (se estiver em público, abaixe o volume do computador).

http://www.youtube.com/watch?v=icmwbxrBd8s

Como as últimas duas recomendações são de night, vale a ressalva de que ultimamente estou bastante "fora do circuito", mas essas duas são digamos "de bom gosto". (apesar de ainda assim demandarem duas semanas de recuperação e repouso :-)

Por fim, mesmo que óbvio pelo post, Beirute fica ainda mais interessante depois de assistir o filme Caramel.

E agora, me despeço no melhor estilo libanês: Bonsoir; تصبح على خير.; Good Night!